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	<title>My CMS &#187; artigos</title>
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		<title>Intercultural ?</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Jul 2015 23:09:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[cooperativapaulista]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[artigos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Dia do empresário- palestra e encontro com imigrantes no auditório da Pastoral</p>
<p><em>NOTA: esse é um relato absolutamente parcial, afetivo e ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Dia do empresário- palestra e encontro com imigrantes no auditório da Pastoral</strong></p>
<p><em>NOTA: esse é um relato absolutamente parcial, afetivo e artístico. Não necessariamente corresponde à verdade…(mas o que é a verdade?).</em></p>
<p>Parece que precisamos reafirmar aos empresários que a escravidão acabou e que os direitos trabalhistas adquiridos não podem ser rechaçados apenas dizendo que ao se valerem deles os trabalhadores são preguiçosos, que as mulheres engravidam de propósito e por aí vai.</p>
<p>Chegamos cedo e a cena dos imigrantes ocupando o pátio em frente à igreja se repetia. Vimos que também lavavam roupas e penduravam onde era possível: arame farpado, grade, qualquer lugar. Havia um homem que raspava a cabeça com gilete. Cobertores enrolados entre as colunas denotavam que muitos devem dormir no chão.</p>
<p>Novamente os<em> branquelos </em>chamam atenção e criam a expectativa de que estamos lá para oferecer um emprego.</p>
<p>Os “empresários” eram em sua maioria <em>testas de ferro</em> ou as <em>menininhas </em>do RH. Havia de tudo: uma senhora, proprietária de uma empresa de sei lá o que, uma sindica que queria um zelador imigrante, enfim, pequenas empresas. As grandes se juntam em conglomerados e terceirizam essas contratações. Uma psicóloga estava lá e nos disse que O Boticário, Natura e sei lá mais qual, usavam os serviços de sua empresa.</p>
<p>Ninguém quer um especialista, mas sim um carregador, limpador, burro de carga. <em>Os imigrantes são dóceis  e aceitam qualquer coisa </em>- dizem os pretendentes a levar um para seu negócio. *</p>
<p>Vamos à palestra:</p>
<p>Tudo começa com a palestrante da Pastoral nos convidando a relatar, um por um, de onde vieram nossos avós e pais. Com isso ela exemplifica que somos todos imigrantes. Isso nos inspirou a fazer o mesmo na peça, afinal por aqui o único brasileiro é o Leandro!</p>
<p>Ela faz um histórico do trabalho da Pastoral e após um café os <em>empresários</em>** começam a ficar inquietos e querendo ir direto ao ponto: como contratar imigrantes? À tarde essas mesmas pessoas entrarão num auditório e conhecerão os candidatos às vagas disponíveis.</p>
<p>* essas foram as impressões de apenas um dia do empresário. Já estivemos em outras ocasiões e o panorama foi diferente: haviam pessoas realmente conscientes de seu papel ao contratar imigrantes e pudemos ver que não dá pra afirmar que exista uma só posição com relação ao assunto.</p>
<p>** empresários aqui podem abranger desde uma única pessoa que deseja um empregado domestico até grandes empresas de vários setores.</p>
<p>Após uma entrada triunfal no auditório os empresários já encontram os candidatos devidamente acomodados na plateia. Voluntários tentam traduzir as vagas disponíveis para que aqueles que falam francês, creoulo, ingles, árabe, dialetos africanos, congolês, castelhano etc… possam entender o que significa por exemplo: auxiliar de serviços gerais.</p>
<p>Entre eles pessoas com diplomas de engenharia, computação e todo tipo de habilidades. Mas como nos dizem, quem lembra de pegar diploma ao sair correndo de um lugar para salvar a própria pele?</p>
<p>Aos poucos as verdadeiras tarefas vão se revelando:</p>
<p>Um sítio é na realidade um hospício. Hospicio não, diz o Sr, casa de recuperação.</p>
<p>Um restaurante é na verdade uma pessoa física (?) que irá terceirizar pessoas para um sindicato de restaurantes.</p>
<p>O auditório lotado: quem fala português? 3 gatos pingados levantam a mão, mas   continuam explicando tudo em Português mesmo!</p>
<p>Depois vem o inglês e o barulho do lugar não deixa nada do que é dito ser entendido e fica o dito pelo não dito e todos resolvem se amontoar nas mesas dos “empresários” antes que seja dada a largada oficial.</p>
<p>Lá fora embaixo de uma enorme tenda, a discussão com o Haitiano que toca trompete está acalorada: ele é advertido pelos próprios companheiros de que não é hora de tocar para não atrapalhar o auditório. É maravilhoso ouvir os sons de tantos idiomas.</p>
<p>Lá dentro Kossivi com sua roupa verde espera… junto dele Abdulai que diz não saber escrever espera também….</p>
<p>Um deles vindo da Africa de um lugar que não sou capaz de repetir o nome, disse olhando nos meus olhos que eu era “sua mãe”! Foi difícil explicar que somos apenas artistas e…sem dinheiro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Primeiras experiências no saguão da Pastoral</strong></p>
<p>Haviam poucos como sempre sentados no chão com um celular plugado e fones de ouvidos.</p>
<p>Sob olhares de desconfiança e incredulidade, começamos os movimentos de ficar <em>sem nada para fazer</em> com os olhares deles cravados em nós.</p>
<p>As pessoas da casa já nos reconhecem.</p>
<p>O som que levamos se perde e se torna estridente com o teto alto. Fica dificil distinguir som de barulho e de falas com sotaques.</p>
<p>Max (segundo Ederson ele aprendeu a lição: sempre abrevie seu nome para ficar mais fácil para o empresário te chamar) veio falar conosco. Ele está a mais tempo na casa, se veste bem e fala português melhor. Disse vir do Congo e sabia o que queria dizer a letra da canção “Makambo&#8221; de Geoffrey Oryema que usávamos para ensaiar e ao mesmo tempo chamar atenção deles pela sonoridade. Havia um que nos olhava com olhos de pantera- profundos, negros e não dava espaço pra nenhuma gracinha ou comunicação.</p>
<p>Foi um bom começo. Imagino que eles não se aproximarão tão facilmente.</p>
<p>1-   3 entradas de esperar</p>
<p>2-   aparecer e desaparecer</p>
<p>3-   diagonal</p>
<p>4-   slow</p>
<p>5-   centro e parede</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Dia da Palestra Intercultural</strong></p>
<p>A aula era para ser dade em francês, mas a voluntária teve um problema e a substituta só falava ingles. E assim foi: uma palestra em Inglês para uma audiência que fala Francês e/ou Creoulo.</p>
<p>O principal objetivo na verdade é preencher um formulário que dará acesso ao dia da escolha de possiveis colocações em alguma empresa. Por isso quando a professora disse que quem não falasse inglês que se retirasse, a maioria ficou mesmo assim.</p>
<p>A palestrante é Polonesa, mas casada com um Português de Portugal. Fala um Português com sotaque que mistura Português com Polonês para uma plateia que fala outras linguas.</p>
<p>Recomendações se sucedem:</p>
<p>&#8211; diminua seu nome- torne-o compreensivel</p>
<p>&#8211; o brasileiro não diz não.</p>
<p>&#8211; a bandeira brasileira possui cores que representam a mata, o céu e blá, blá, mas não tem a cor vermelha. E sabem por que? Porque o Brasil não faz guerras.</p>
<p>&#8211; que as relações entre empregadores e empregados são da área do afeto por conta da escravidão e mostra uma representação da Casa Grande e da Senzala</p>
<p>&#8211; avisa que os brasileiros tomam 3 banhos por dia ( nota- nessa época a cidade estava sem água)</p>
<p>&#8211; indica que sorrir sempre é um bom caminho</p>
<p>&#8211; o brasileiro não aceita conflitos</p>
<p>&#8211; diz ser possível progredir no Brasil apesar das diferenças sociais.</p>
<p>&#8211; diz ser aqui o país da abundância</p>
<p>&#8211; evitem gesticular muito</p>
<p>&#8211; diz que os brasileiros são ótimos gerentes de crises</p>
<p>&#8211; que o brasileiro não é persistente pois se não tem manga come banana</p>
<p>&#8211; e finalmente diz que o sorriso faz milagres no Brasil.</p>
<p><em>NOTA- esse relato não visa ridicularizar a iniciativa da Palestra Intercultural. Como já disse antes é um relato subjetivo de um olhar artístico.</em></p>
<p>Fany auxilia os que ainda não conseguiram preencher devidamente suas fichas, pois ela fala francês. Assim nos sentimos um pouco úteis.</p>
<p><em><strong>Mirtes Calheiros</strong></em></p>
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		<title>Tempo Suspenso &#8211; primeiros registros</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Jul 2015 20:39:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[cooperativapaulista]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[artigos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Para organizar as idéias sobre o projeto Tempo Suspenso foi necessário um estudo prévio sobre a realidade das pessoas em ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Para organizar as idéias sobre o projeto Tempo Suspenso foi necessário um estudo prévio sobre a realidade das pessoas em situação de refugio atualmente na cidade de São Paulo, além de um contato regular junto às instituições envolvidas nas questões relacionadas ao tema do refugio.</p>
<p>Aquilo que nos tocou profundamente ainda em solo Lusitano (frequentes naufrágios de navios africanos e sírios rumo à Europa) , deveria ter um preparação antes mesmo de começarmos nossos ensaios.</p>
<p>Assim fizemos, como sempre, de comum acordo com o elenco da Cia. Artesãos do Corpo, decidimos que levariamos adiante tal empreitada artistica com ou sem apoio financeiro.</p>
<p>Esses breves relatos se referem à esse tempo de preparo e inicia uma série de escritos sobre a primeira fase do projeto “Tempo Suspenso” contemplado pelo 18o edital de Fomento à Dança para cidade de São Paulo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>As primeiras impressões:</strong></p>
<p><strong>Carta de um domingo de Carnaval, 15 de fev 2015</strong></p>
<p>A dificuldade de trabalhar com um tema tão amplo e revelador do mundo em que estamos metidos sem que nos disponhamos a mudar habitos e modos de viver se apresenta logo nos primeiros contato com a realidade dos refugiados.</p>
<p>Visitando os centros de acolhidas encontramos pessoas em situação de refugio ou imigrantes humanitários que de<em> mãos atadas</em> nos olham como se fossemos levar alguma resposta ou esperança de ajuda. Temos a sensação que qualquer movimento é falso perto da dor, solidão e desamparo que testemunhamos.</p>
<p>Aos poucos vamos descobrindo tantos e tantos campos de refugiados pelo mundo, tantos e tantos sem nada. Tantos que chegam na cidade: os que fogem da Guerra, da fome, da perseguição.</p>
<p>A natureza e nós caminhamos pro beleléu, só pra ficar nos dias de carnaval que correm.</p>
<p>A ultima visita à Pastoral , numa sexta feira de carnaval, foi triste, muito triste. Encontramos novamente Padre Atenor que após uma noite sem dormir se dividia em mil (cozinhando macarrão numa enorme panela para os moradores da casa que abriga refugiados, falando com a SABESP para liberar água para a Casa do Migrante e ainda com disposição para nos mostrar a Igreja da Paz e os afrescos de Pennachi) e muitos imigrantes acomodados pelos espaços vazios, entre os arcos, escadas, esperando….</p>
<p>Eram muitos. Muitos que chegam com a noite &#8211; dias de tantas emergências.</p>
<p>Por hora seria muito bom que ajudassemos a preparer pelo menos o café ou a salchicha santa de cada dia. Mais uma visita dessas e me ponho a ajudar a Pastoral.</p>
<p>A igreja da Paz, lá estava, muito limpa e silenciosa. Olhei novamente os afrescos de Pennachi, tentando entender o que tudo aquilo tinha a ver com tudo aquilo lá fora. As santas da América Latina, outra expoliada, lá estão com seus mantos e cabelos naturais.</p>
<p>Vimos novamente as fotos dos primeiros padres da ordem Escalabriniana que desde muito se dedicam ao auxilio de exilados, imigrantes, migrantes e refugiados.</p>
<p>Não tive coragem de pedir para ensaiar. E mesmo que tivesse, onde? Em meio a tantos acomodados no chão?</p>
<p>Seguimos..</p>
<p>beijos à todos meus amigos nessa viagem</p>
<p>mirtes</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A Dor do MA</strong></p>
<p>(E-mail à Michiko Okano orientadora e pesquisadora MA no projeto Tempo Suspenso)</p>
<p>Aprendi que o MA também é um entre espaço de dor.</p>
<p>Aos poucos vamos construindo cenas, experimentado algumas seqüências, (embora ainda seja cedo para tal) e deixando muito espaço para insights e acasos. Estamos trabalhando movimentos que remetem à acontecimentos ou lembranças do passado ou premonições de repetições no futuro. O presente? espero que seja o MA.</p>
<p>&#8220;… o que aqueles a quem falamos e vemos nos dizem, daqueles que não falamos e não vemos&#8221; Marc Augé, Não Lugares</p>
<p>As histórias que ouvimos e ainda escutamos ou lemos, se misturam. As cenas que presenciamos nas instituições ficam cada vez mais intensas. A Pastoral quase não tem mais lugar para ninguém. Aquele espaço da entrada está totalmente ocupado pelas pessoas que não param de chegar diariamente. Continuamos comendo coxinhas e kibes com nosso amigo sírio M. que nos presenteia com muitos doces tipicos de seu país.</p>
<p>Sabemos que as tragédias não podem ir ao palco. Seria um desrespeito. Como falar de crianças que morreram lentamente em frente a médicos desesperados, sem nada poder fazer pois foram expostas a armas químicas que expelem cloro?</p>
<p>Caminhemos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Casa do Migrante no complexo da Pastoral do Imigrante</strong></p>
<p><strong>Encontro com Marcia assistente social da Casa do Migrante</strong></p>
<p>O lugar é impressionante. Me refiro à todo o complexo &#8211; um quarteirão murado &#8211; que compreende a Casa do Migrante, o Centro Estudos Migratórios CEM (voltado para a Academia), o Centro Pastoral e de mediação e a Igreja da Paz (Paróquia Italiana, Anglo Latina e uma vez por mês tem missa em Francês). As casas se comunicam mas possuem regras próprias. A Pastoral recebe imigrantes que possuem visto humanitário (é o primeiro lugar em que se entra). A Casa do Migrante, com arquitetura italiana, recebe refugiados, com capacidade para até 110 pessoas. Ainda me parece que o termo refugiado ou imigrante está um tanto borrado, mas talvez com a vivência ficará mais claro. Para entrar na Casa vale tudo segundo Marcia: mentir, dizendo que matou toda a família (acho que é brincadeira dela), vir por iniciativa própria por não encontrar sentido onde vivem já que perderam toda a família, desejo do desconhecido ou os casos mais graves de repressão psiquica pela guerra constante em seu pais de origem ou por questões de perseguições que colocam a vida em risco.</p>
<p>De qualquer forma, o que se lê quando se procura refugiado não é o que corresponde à realidade da Casa.</p>
<p>Marcia é assistente social e está lá há 14 anos. Super falante, até já se parece com uma Síria, embora seja brasileiríssima. Usa termos emocionantes como: ao chegar o imigrante grita pela pele, ou quem trabalha com pessoas em situação de refugio também precisa ser cuidado. Ela parece ter um trabalho muito preciso junto às pessoas que trabalham com os imigrantes: cozinheiras, porteiros e monitores, pois muitas vezes essas pessoas não compreendem, ou esquecem a situação em que se encontram aqueles que estão distantes de tudo que fazia sentido em suas vidas.</p>
<p>Ao chegar na casa eles podem guardar seus pertences num armário com chave e as malas maiores num depósito. Ficam alojados em quartos coletivos, separando homens de mulheres e crianças. Às 7 da manhã devem deixar a casa e só podem voltar após as 16 ou 17h, quando vão jantar. Aqueles que estão estudando podem chegar mais tarde. Aos domingos podem ficar o dia todo por lá.</p>
<p>O que eles fazem quando estão fora da casa?</p>
<p>Uma curiosidade: os primeiros imigrantes a chegar na casa foram 2 Vietnamitas ( ?).</p>
<p>Imagine que &#8220;amarrar o passo&#8221; significa que o imigrante não vai sair de lá tão cedo, ou porque não quer ou porque é exigente, como os francófonos que não aceitam qualquer coisa. Já os Haitianos são mais aceitos e os Africanos, mais <em>arrogantes </em>e são evitados por aqueles que procuram os equipamentos para oferecer trabalho.</p>
<p>Ali é um mundo a descobrir. Imagine que terças e quintas, há uma palestra da Pastoral dirigida aos empresários que querem contratar os imigrantes. Queremos ver isso de perto.</p>
<p>Às quintas, é o dia de lavar roupa. Há o dia dos homens e o dia das mulheres. Eles entram pelo portão de ferro, recebem um pedaço de sabão e vão para os tanques.</p>
<p>A casa foi criada pelo padre João Batista Escalabrini, considerado o apóstolo dos imigrantes. O lugar é muito limpo e impessoal. Não quero me apressar mas a primeira impressão é de um lugar triste. Mas como no horário estava praticamente vazio, ficamos com essa impressão.</p>
<p>Minha idéia é realizar algumas visitas não só nos equipamentos do complexo, como no entorno que é terrivel! Fazer uma residência está nos nossos planos, mas primeiro queremos visitar mais vezes até decidirmos por uma estratégia. Não é proibido falar com os imigrantes, mas na Casa especificamente é melhor que seja de uma forma indireta, uma vez que muitos jornalistas e estudantes estão lá quase que diariamente assediando os moradores.</p>
<p>Outras informações nos foram passadas mas o mais importante foi ter obtido um salvo conduto para frequentar os ambientes mais à vontade.</p>
<p>Na última Bienal de São Paulo havia a obra de uma artista que preocupada com o desaparecimento da arte árabe, criou &#8220;estruturas para sombras perdidas&#8221;. Segunda ela, algumas obras de arte começaram a perder suas sombras&#8221; . Obra repleta de MA. Edward Krasneski, cujas composições no espaço capturam o MA também merecem um olhar mais detalhado.  E Tony Chakar que capturando imagens de cidades vazias, descobre as pessoas “entrando&#8221; nas fotos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>Mirtes Calheiros</strong></em></p>
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		<title>IV VISÕES URBANAS &#8211; reflexões e continuidade</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Aug 2014 23:19:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[cooperativapaulista]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[artigos]]></category>
		<category><![CDATA[centro histórico de são paulo.]]></category>
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		<category><![CDATA[Visões Urbanas]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>A IV Edição do Festival Visões Urbanas findou num sábado de outono e ainda ecoa pelo centro de São Paulo. A ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><span class="dropcap">A</span> IV Edição do Festival Visões Urbanas findou num sábado de outono e ainda ecoa pelo centro de São Paulo. A edição de 2009 concentrou 15 apresentações artísticas e um bate papo com pesquisadoras e criadoras fundamentadas no bailarino e arquiteto Rudolf Laban. O Pateo do Colégio, lugar privilegiado da cidade por seu fácil acesso, por ser um marco histórico (local da fundação de São Paulo), possuir um chão bem cuidado e propicio ao movimento, possibilitar visão ampla e de vários ângulos à platéia (colaborando com uma das características do Festival em não ter palcos formais) e finalmente, possuir suporte para segurança do público e artistas, confirmou ser um cenário perfeito para as apresentações.</p>
<p>As imagens (fotos e vídeo) falarão mais que as palavras, momentos poéticos e intensos que ficarão na memória dos que saíram de suas casas ou por um acaso cruzaram aquele quarteirão entre os dias 20 a 23 de maio. O interesse acerca do festival por uma mídia viciada em tragédia, foi surpreendente. Tivemos cobertura total da mídia impressa, digital e televisiva.</p>
<p>O festival uniu mais uma vez os participantes, através de uma programação que facilitou o convívio e o contato entre eles e com a cidade. Essa troca é afetiva, artística e lança amizades e contatos futuros. Assim tivemos Portugal, Espanha, Cuba e Argentina, bem como o estado de Alagoas, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Salvador e São Paulo falando a mesma língua – a linguagem da dança.</p>
<p>O que tenho a agradecer é o empenho, principalmente dos grupos que vieram de outras cidades e países, em participar do festival. Graças a essa imensa vontade que eles puderam estar aqui conosco e trazer suas criações para a cidade de São Paulo.</p>
<p>Foram quatro dias de intensa movimentação, com uma programação que privilegiou a diversidade estética e as diferentes formas de interação com a platéia e com a paisagem urbana.</p>
<p>Aos que ainda não conseguiram enxergar a importância do Festival Visões Urbanas a IV Edição marcou definitivamente o calendário da cidade – é o único festival com essas características que ocorre na maior cidade da América Latina, acolhendo um número incrível de público diariamente, contando com a simpatia imediata dos que por ali passam. Une e movimenta grupos de dança do país inteiro (recebemos propostas, além dos estados contemplados na programação, da Bahia, Amazonas, Rio Grande do Sul, Paraná) e já recebemos inúmeros pedidos de companhias e criadores da Europa (França, Bélgica, Alemanha, Espanha, Itália) comprometidos com a próxima edição que acontecerá em abril de 2010.</p>
<p>Em se tratando de um país como o Brasil que possui dimensões continentais, o fato de recebermos trabalhos e artistas que desenvolvem sua pesquisa no norte e nordeste do país facilita a circulação de idéias e o encontro entre todos, nos permitindo olhar para outros estados fora do eixo sul-sudeste, além de incentivar a continuidade dos trabalhos sabendo que existe um espaço para sua circulação e difusão.</p>
<p>Ainda sob a emoção da semana que acolheu 15 companhias de dança, arrisco uma análise do IV Festival Visões Urbanas, me permitindo desvios para falar das outras edições, pois é nesse processo continuo de aprendizado que caminhamos.</p>
<p>Difícil buscar uma regularidade de acontecimentos desde o primeiro Visões Urbanas tal a complexidade e singularidade que permeia cada um deles.</p>
<p>Ao contrário do que se espera de um encontro que supostamente deverá ocorrer anualmente, onde o aperfeiçoamento se dá pela reflexão de experiências vividas algumas bem vindas e outras que seguramente buscaremos evitar, isso não ocorre plenamente tamanha a diversidade de uma edição para o outra, seja em termos do montante dos apoios ou a total falta deles (como foi o caso da II edição), seja pela dificuldade que os grupos encontram em conseguir apoios para viagem.</p>
<p>O IV Festival Visões Urbanas que acaba de acontecer, caminhou para algo que consideramos de suprema importância: o congraçamento entre os participantes que vieram de outras cidades, tornando o encontro verdadeiro e a troca artística efetiva. Por outro lado, nos chamou a atenção o fato da maioria das companhias de São Paulo, com raras exceções, estarem ausentes nas apresentações de outros grupos e se mostraram menos afeitas a esse tipo de troca. Ausentes também ao Encontro Mulheres de Laban, onde acreditamos que teriam muito a aprender, a trocar, a provocar, colaborar e enriquecer o debate. Sem a presença maciça de todos o festival perde sua força e criamos uma relação de contratante e contratado, imagem que não queremos vincular ao festival. Tanto eu, Mirtes, como Éderson, somos artistas, antes de programadores, e são as dimensões artísticas e humanas que nos interessam com essa iniciativa que já dura quatro anos.</p>
<p>Outro aspecto que merece reflexão são as dinâmicas adotadas pelos apoiadores onde durante todo o processo de negociação, fazem exigências burocráticas, resultando em uma enorme perda de tempo e desperdício de verba, uma vez que providências precisam ser tomadas para que o festival ocorra da maneira como foi pensado e aprovado pelos mesmos que parecem não compreender a especificidade de cada projeto.</p>
<p>Em diferentes escalas todos os apoiadores “oficiais” seguem a mesma dinâmica. O PROAC e a Secretaria do Estado da Cultura nos deram relativa liberdade no gerenciamento artístico, mas corta verba preciosa, além de dividir o orçamento em quotas que muitas vezes engessam inúmeras iniciativas. Não podemos negar que os patrocinadores/apoiadores são essenciais para a realização do festival, e esperamos contar com todos novamente para a próxima edição, mas essa reflexão é fundamental para a afinação do diálogo entre realizadores e patrocinadores.</p>
<p>Soma-se a isso a precariedade do nosso setor turístico e a falta de sensibilidade das empresas em apoiarem um acontecimento tão feliz para a cidade.</p>
<p>Nesse caminho vamos encontrando aqui e ali, alguns que ainda estão vivos e se entusiasmam. À administração do Páteo do Colégio rendemos elogios, pois o Padre Contieri e sua secretária Priscila Correa foram de extrema importância para o festival acontecer nesse belo cenário.</p>
<p>Não podemos dizer o mesmo dos prédios públicos ao redor do Páteo do Colégio. Existem pelo menos três órgãos que de público não tem nada. Um deles curiosamente abriga a Secretaria de Direitos Humanos. Sugerimos à todos uma visita&#8230; A burocracia e a falta de sensibilidade é algo que não devemos aceitar, mas em uma secretaria que se intitula de direitos humanos isso é uma ofensa. Os prédios da Secretaria da Justiça têm em sua porta seguranças que barram a sua passagem a menor menção de olhar o belo pátio interno que eles possuem um deles ironicamente nomeado Pátio da Cidadania. Por quê? Ali seria um belo lugar para realizar apresentações quando chove ou quando faz frio. Existe um potencial artístico na cidade que não é explorado!</p>
<p>E, no entanto o festival aconteceu, mas ficam diversas perguntas:</p>
<p>E o ano que vem?</p>
<p>O que aprendemos com esse?</p>
<p>Valeu a pena tanto trabalho se não há a mínima certeza de continuidade?</p>
<p>Será que os envolvidos vão reavaliar suas posições burocráticas e refletir sobre seu papel diante da arte e da sociedade?</p>
<p>Que só vamos selecionar trabalhos artísticos que tenham sido REALMENTE criados na e para a rua, mesmo correndo o risco de ficar com três ou quatro apresentações?</p>
<p>Creio que ainda é cedo para tais conclusões, mas as perguntas nos motivam a refletir e definir parâmetros para os próximos anos.</p>
<p>Ficamos imensamente felizes com o resultado e com o retorno do público que acompanhou o IV Visões Urbanas, reafirmando esse projeto como um acontecimento essencial para a cidade.</p>
<p>Para finalizar agradecemos os mais de 70 projetos recebidos, os profissionais envolvidos na produção e na logística do festival, aos mais de 90 artistas que dançaram, produziram, compuseram musicas, operaram o som ou tocaram ao vivo, criaram figurinos, registraram, desenvolveram idéias cenográficas movimentando o mundo da dança.</p>
<p>À todos muito obrigado.</p>
<p><strong>Mirtes Calheiros</strong></p>
<p><strong>Ederson Lopes</strong></p>
<p><strong>The Woody projetos artísticos e culturais</strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Arquitetura do movimento</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Aug 2014 23:17:12 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[<p>Vivo em uma cidade prisão! Seu nome? São Paulo!</p>
<p>Dizem que por aqui existe um dos melhores cursos de arquitetura do ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Vivo em uma cidade prisão! Seu nome? São Paulo!</p>
<p>Dizem que por aqui existe um dos melhores cursos de arquitetura do mundo! Acho que sim, mas fico imaginando se esses profissionais estão sendo ouvidos em suas sugestões arquitetônicas e urbanisticas para melhorar a vida nas metrópoles. A pesquisa de materiais, soluções arquitetônicas e urbanísticas mais humanas, ecológicamente corretas e harmoniosas tem sido apresentadas. Mas de nada têm adiantado.<br />
O argumento utilizado para não desenvolver tais projetos sempre é o fator financeiro!</p>
<p>Mas esse é um argumento questionável, pois a saúde da população fica prejudicada quando não há uma visão ética/estética do espaço a ser ocupado pelas pessoas e o valor não investido na “causa” acaba sendo duplicado no “efeito”. Não vamos entrar no mérito dos materiais recicláveis que não são utilizados e da responsabilidade sócio-ambiental que não existe na maioria das empresas e órgãos públicos nessa cidade.</p>
<p>Vocês já visitaram São Paulo? Aqui convivem bairros de inimaginável sofisticação arquitetônica, com favelas de inimaginável pobreza. Miseráveis mesmo! O argumento, já gasto, de que isso é fruto do capitalismo selvagem que mantém mão-de-obra barata, não alivia a vida de quem convive com essa cruel realidade. Mas o fato é que o Brasil possui uma das piores distribuições de renda do planeta, se não a pior, fomentando com isso uma indústria da pobreza.<br />
Os que ficam fora da festa (a maioria), quando submetidos ao caldeirão que são as cidades contemporâneas, reagem à altura. O fenômeno é mundial. Aqueles que foram banidos da festa do consumo reagem e ações violentas tomam o lugar das reivindicações que não são ouvidas.<br />
Aqui, o caos está instalado. A maior cidade da América Latina, com quase dez milhões de habitantes e sua vizinha o Rio de Janeiro, vivem uma degradação ambiental, social e urbanística: ênfase no transporte individual, falta de áreas verdes, especulação imobiliária, poluição e violência.</p>
<p>Essas condições produzem algumas aberrações arquitetônicas. Luxo ao lado do lixo. Edifícios sofisticados junto à favelas que muitas vezes apresentam construções originais digna de um Gaudí.<br />
Há algum tempo, disseminou-se pelas capitais brasileiras a idéia de que com a utilização de equipamentos ditos de segurança poderiam conter a fúria da urbe menos favorecida. Assim mudaram rapidamente a paisagem cosmopolita. Os muros cada vez mais altos e com lanças pontudas, possuem farpas de “alta tecnologia”. Os antigos nós dos arames farpados foram substituídos por lâminas mortais que cortam dos dois lados.</p>
<p>Não vou falar das câmeras de “in-segurança” que até hoje não impediram assaltos; dos seguranças particulares; da indústria do medo, das portas giratórias dos bancos que impedem a passagem de velinhas inofensivas. As grades cercam todas as habitações, edifícios, condomínios e parques transformando São Paulo em uma enorme prisão. Para entrar em seu próprio edifício o porteiro aperta um botão que abre a primeira porta-grade que finalmente dará acesso ao saguão, devidamente equipado com câmeras. Toda santa vez que você sair de seu prédio irá ficar por alguns segundos preso entre essas duas grades, os que saem de carro não escapam do mesmo esquema.<br />
Os moradores gostam&#8230;.Se sentem seguros&#8230; E não perceberam que apesar do alto investimento o assaltante quando resolver agir, aponta o revólver ainda na rua para a cabeça do funcionário do condomínio, ou aborda o morador do prédio na entrada da garagem e pega carona com o mesmo, que ameaçado, pede desesperadamente para desligarem alarmes e demais equipamentos.</p>
<p>Os arquitetos Isay Weinfeld e Marcio Kogan apresentaram na bienal 2002 de São Paulo a exposição “Happyland vol.2” ironizando a neurose e o consumo desenfreado dos itens de segurança. Havia instalações como um muro que ao invés de cacos de vidro ou lanças tinha revólveres apontados para a rua que caso necessário, atingia mortalmente o ladrão &#8211; sem sujar a calçada! Ou um muro residencial, cuja altura é regulada de acordo com os índices de violência do dia. O objetivo deles é tirar as pessoas do estado anestesiado em que se encontram para os absurdos da realidade desta cidade.</p>
<p>Ítalo Calvino, em seu livro “As cidades invisíveis” ,alerta para as cidades que faz você ver aquilo que ela quer que você veja. São Paulo é hábil em lhe mostrar progresso e modernidade tentando esconder a miséria e o sofrimento da população. O Rio de Janeiro quer que você acredite que ela ainda é a Cidade Maravilhosa, tentando disfarçar a guerrilha urbana que ceifa mais vidas do que a guerra do Iraque.</p>
<p>Assim como a dupla de arquitetos citados acima, há muito que a Cia. Artesãos do Corpo/Dança-Teatro (desde 1999), pesquisa uma linguagem que possibilite o diálogo da dança com a cidade, provocando a reflexão das pessoas através de intervenções sutis. Assim começou a pesquisa do primeiro espetáculo do repertório da companhia Espasmos Urbanos e a instalação coreográfica de rua: Olhar Urbano que consiste no deslocamento o mais lento possível dos intérpretes da companhia em locais movimentados.</p>
<p>Nossa linguagem se baseia nos princípios de um arquiteto/artista plástico e estudioso das motivações que levam as pessoas a se moverem. Difícil defini-lo por uma só função. Ele foi um pesquisador completo, a frente de seu tempo.</p>
<p>Seu nome: Rudolf von Laban.</p>
<p>A arquitetura de um lugar ou de uma cidade pode estimular ou impedir os movimentos declarava ele. O que pretendemos com a supervalorização das linhas retas e dos planos verticais nas metrópoles ditas modernas em contraste com a originalidade proposta pelos moradores dos bairros periféricos e favelas, ainda que as condições de higiene, saúde e segurança sejam precárias? Será que temos consciência dos efeitos que isso traz para a sociedade e consequentemente para o corpo? Não será isso também um problema da esfera do meio ambiente?<br />
Posso afirmar com convicção que a arquitetura de uma cidade reflete a ideologia de seus governantes e o que a sociedade está valorizando em um determinado momento, indicando como se encaminha para o futuro.</p>
<p>Rudolf von Laban (1879-1958) nasceu na Bratislava, antigo império Austro-Húngaro e a partir de seus estudos e sistematizações sobre as motivações que leva os homens a se movimentarem foi considerado o “pai” da expressão corporal. Sua formação acadêmica o leva a se deter nas formas geométricas criando um sistema que abre caminhos às possibilidades de movimentação em um espaço-tempo determinado.<br />
Laban cria as bases para uma dança inclusiva, pela qual qualquer pessoa está apta a realizar sua coreografia, indo contra as técnicas de dança tradicionais, onde um corpo específico é requerido para se submeter a um treinamento visando apenas um resultado estético.<br />
Em seu livro Domínio do Movimento, encontramos a afirmação: o movimento é a manifestação exterior de sentimentos internos. Laban antecipa possibilidades de investigação do movimento por outras áreas do conhecimento e atenta para a natureza simbólica dos mesmos.</p>
<p>Seus estudos sugerem e incluem um constante diálogo entre as artes (instalações, performances, teatro, etc&#8230;) e as explorações propostas por ele levam a conectar corpo, mente e emoções. Para ele, o movimento não possui uma ordem lógica, deixando a cargo de quem o executa uma possibilidade infinita de pesquisa sobre as maneiras do corpo se organizar, indo contra toda forma de represar o movimento ou coloca-lo sob regras rígidas.</p>
<p>Em seu desejo de progresso científico, vislumbra a interação entre as ciências e as artes. Sua relação com a matemática, a arquitetura, a natureza o levam ao conceito de Harmonia Espacial, cujo tema é o corpo no espaço ou como o ser humano se relaciona com o espaço. Fala do corpo humano “em termos de arquitetura tridimensional: comprimento, profundidade e largura do corpo, além dos eixos vertical, horizontal e sagital – a Cinesfera – o espaço pessoal que envolve o corpo e que oferece um modelo para o espaço geral. “O movimento é uma arquitetura viva e segue as mesmas leis de proporção nas suas partes que equilibra o todo” ( Dominio do Movimento). Encontra a Proporção Áurea no Icosaedro e nos movimentos cotidianos.</p>
<p>Sem a noção de espaço não há desenvolvimento, dizia Laban. Seus estudos se referiam aos espaços arquitetônicos e os efeitos que causam na maneira das pessoas se movimentarem. Introduz o conceito de arquitetura corporal e arquitetura do espaço, em que “o corpo modifica e é modificado pelo espaço ao seu redor”. Utiliza o conceito da Banda de Moebius (oito invertido) pelo qual qualquer análise deve levar em consideração a idéia de que não existem lados e oposições, mas tudo está em constante movimento transitando ao mesmo tempo entre dentro e fora. A Lamniscata ou Banda de Moebius pode ser aplicada a qualquer área do conhecimento ou investigação e aqueles que a adotam fogem do maniqueísmo que uma visão dualista do mundo trás, indo ao encontro de uma visão sistêmica.</p>
<p>Laban não cria um método, mas um sistema que deixa ampla margem de ação para aqueles que adotam seus conceitos em suas áreas de atuação. Os ensinamentos desse incansável pesquisador vão muito além. Seu sistema de notação do movimento antecipa softwares que apenas recentemente foram desenvolvidos. Atualmente acredito que Laban estaria revendo seus conceitos sobre corpo no que tange a velocidade e espaço, bem como os espaços virtuais, o corpo desterritorializado, o corpo que se joga no ar.</p>
<p>Pensando nas proposições de Laban vamos olhar São Paulo mais uma vez.<br />
Cidades como São Paulo, verticais e sem recantos ou “redondos” convidam ao pragmatismo, à velocidade e a corpos que não mais ficam nas ruas: que correm para casa assim que possível. Nos edifícios corporativos existe uma tendência a destinar amplas áreas que unem um complexo ao outro com a falsa intenção de humanizar o aço e o concreto. Esses lugares abrigam plantas ornamentais que não serão olhadas e se você experimentar sentar ou se deter ali um segurança virá alerta-lo de que é proibido ficar neste local.</p>
<p>As linhas suaves, redondas que compõe recantos e não cantos como os ângulos das megalópoles, foram banidas principalmente na parte do Brasil onde habitamos. Casas ou edifícios históricos são demolidos, muitas vezes se transformando em estacionamentos, tirando do povo seu direito a memória.</p>
<p>Mesmo nesse cenário hostil as pessoas conseguem desenvolver suas vidas e não raro vemos plantas nascerem literalmente do asfalto. Mais uma vez Ítalo Calvino em Cidades Invisíveis, fala sobre seu fascínio pelo símbolo complexo da cidade, pois ele lhe permitia maiores possibilidades de exprimir a tensão entre a racionalidade geométrica e o emaranhado das existências humanas.</p>
<p>A racionalidade geométrica do MASP &#8211; Museu de Arte de São Paulo, consegue acolher belamente essas existências: possui um enorme vão livre onde as pessoas podem se abrigar, sentar, namorar, sem ter que consumir algo (a arquiteta Lina Bo Bardi foi responsável pelo projeto). É um dos locais preferidos da Cia Artesãos do Corpo para realizar suas pesquisas de movimentos na rua.</p>
<p>Que mensagens Laban deixa para arquitetura e para as artes cênicas?</p>
<p>A mensagem de que não existem espaços vazios! “O que existe é uma ordem cósmica natural e a presença do movimento em todos os aspectos da vida. Esqueça qualquer idéia de estabilidade ou mobilidade completa: o equilíbrio é o resultado de duas qualidades contratantes da ação”.</p>
<p>Mirtes Calheiros</p>
<p>Mirtes Calheiros. Socióloga, bailarina, diretora da Cia. Artesãos do Corpo/Dança-Teatro, coordenadora artística do Festival Visões Urbanas(SP) e diretora do Estúdio Artesãos do Corpo (espaço de formação e criação em dança e teatro) www.ciaartesaosdocorpo.art.br</p>
<p>Santos, Milton – Edusp 2003 &#8211; Economia Espacial<br />
Santos, Milton – Edusp 2004 – Por uma outra globalização<br />
Santos, Milton – Publifolha 2002– O país destorcido<br />
Laban, Rudolf – Editora Summus &#8211; Domínio do Movimento<br />
Calvino,Italo – Cia das Letras &#8211; As Cidades Invisíveis</p>
<p><strong>Mirtes Calheiros</strong></p>
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		<title>Dança-Teatro ou Teatro-Dança?</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Aug 2014 22:16:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[cooperativapaulista]]></dc:creator>
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		<category><![CDATA[Artesãos do Corpo]]></category>
		<category><![CDATA[Dança-Teatro]]></category>
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		<category><![CDATA[Rudolf Laban]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>A dança-teatro se configura como uma arte com características específicas, que se distingue da dança contemporânea e do teatro. Muito ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><span class="dropcap">A</span> dança-teatro se configura como uma arte com características específicas, que se distingue da dança contemporânea e do teatro. Muito mais do que simplesmente unir teatro e dança, a dança-teatro é uma expressão artística que se vale de múltiplas linguagens para a elaboração de uma estética e uma dramaturgia própria, diluindo a fronteira entre essas modalidades artísticas, de tal forma que não se identifica onde começa um e termina a outra.</p>
<p>Laban deu os passos fundamentais para a criação da dança-teatro, propondo a construção e ampliação de um repertório próprio de movimentos em consonância com universo interior do intérprete.</p>
<p>Arte é pulsação, é uma necessidade absoluta que se impõe àqueles que a realizam. Todo artista trás em seus trabalhos vestígios de influencias que absorve durante sua vida, oriundas de diversos âmbitos sócio/culturais. Inúmeros fatores compõem uma personalidade artística, uma maneira de olhar e recortar a realidade e de atuar na vida e na arte, que de todo não se encontram separadas.</p>
<p>A Cia Artesãos do Corpo foi construindo ao longo de 10 anos uma maneira particular de realizar a dança-teatro, criando processos de investigação próprios. Soma-se a isso um convívio eclético, uma direção que leva em conta uma certa pedagogia na relação com seus componentes, que entre outras coisas têm direito ao tempo para poder amadurecer suas idéias e convívio com os demais. Isso acaba moldando um fazer artístico, onde a primazia não é a técnica, mas as pessoas.</p>
<p>Estimulo os intérpretes da Cia Artesãos do Corpo a circular sem preconceitos pela dança, pela performance, pelo teatro, e outras linguagens, de tal forma que o que importa não é necessariamente o primor em nenhuma dessas atividades, mas a necessidade de se manifestar através delas. Em suas experimentações, dogmas e tabus pertinentes a certas categorias artísticas devem ser abandonados, dando lugar a ousadia e ao risco. A academia é o lugar mais apropriado para defesa de teses. No palco só há espaço para a arte.</p>
<p>Os depoimentos sobre determinado tema, ora pessoais, ora coletivos, obrigam o artista a mergulhar na linguagem da qual lançaram mão, seja por necessidade do tema tratado ou puramente pessoal de investigação e prazer. Nesse momento um cem numero de questões surgem e a quebra de princípios rígidos se faz necessária.</p>
<p>A pesquisa de linguagem que a companhia desenvolve possui inúmeras especificidades que demandariam outras considerações, mas o que é claro é que a dança-teatro é uma linguagem artística diferenciada e independentemente dos processos adotados para a construção de seus espetáculos e rotinas de criação, merece um olhar mais atento da crítica e dos pesquisadores para aprofundar a discussão sobre o que surge desse hibridismo que se configura como uma linguagem e uma forma de expressão.</p>
<p><strong>Mirtes Calheiros</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Na Hora da Despedida</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Jul 2014 15:24:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[cooperativapaulista]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>A Cia. Artesãos do Corpo/Dança-Teatro participou da ultima edição do Festival Internacional de Danças em Paisagens Urbanas – Lugar à ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><span class="dropcap">A</span> Cia. Artesãos do Corpo/Dança-Teatro participou da ultima edição do <strong>Festival Internacional de Danças em Paisagens Urbanas – Lugar à Dança</strong> realizado em Portugal em julho/agosto de 2005 com o projeto <strong>Visões Urbanas</strong>. Dele faziam parte a instalação coreográfica Olhar Urbano apresentada no centro histórico da cidade de Coimbra, o workshop O Corpo e a Cidade e o vídeo dança Encontro, apresentado no Parque Verde do Mondego.</p>
<p>Companhia de teatro dança como Cia. Skalen (França), Earthphisdance (Suíça), Nomad (Finlândia), Morphodidius (Holanda) entre outras estiveram presentes com trabalhos que percorrem caminhos investigativos semelhantes aos nossos. Sem preocupação em estabelecer fronteiras conceituais rígidas, também utilizam longos processos de trabalho.</p>
<p>Tínhamos uma inquietação em levar a instalação coreográfica Olhar Urbano, uma vez que falamos de corpos que necessitam transformar o tempo em seu deslocamento pelas ruas para ir ao encontro de movimentos essenciais. A cidade de Coimbra é toda ela dedicada à contemplação, não estando sujeita, portanto ao estresse de cidades como São Paulo. Logo na primeira apresentação essa dúvida se dissipou. De tanto olhar Coimbra, Coimbra precisava ser olhada novamente. Ainda que a violência cotidiana vivida por aqui seja difícil de ser compreendida por aqueles que não participam desse cotidiano, todos puderam sentir o impacto que causa uma dança criada a partir da experiência nas ruas de São Paulo. Como disse o jornal Diário de Coimbra &#8211; “Do estresse paulista a pacatez coimbrã”.</p>
<p>Assim o Earthphisdance, também trazia em sua apresentação movimentos submetidos às rotinas, repetitivos e uma forte crítica à falta de contato humano.<br />
O Moovlab de Lisboa com seu elenco composto de arquitetos e bailarinos levaram para a rua enormes pufes em forma de setas e se deslocavam criando movimentos que buscavam a interação do corpo com as setas e com as pessoas na rua. A identificação entre esse grupo e os Artesãos fui muito forte e esperamos em breve estabelecer uma parceria com eles para realizarmos um trabalho conjunto.</p>
<p>Participaram de nosso workshop intérpretes vindo de diversas áreas da dança, teatro, performance, arquitetura. Após os encontros ressaltaram a liberdade de criação que a linguagem da companhia propicia. Lamentamos o pouco tempo em que ficamos juntos. Todos se apresentaram no último dia do Festival na Pça 8 de Maio no Centro histórico da cidade e foi muito bom vê-los se manifestando sobre a cidade em que vivem.</p>
<p>Foi uma semana intensa. Estávamos em uma casa próxima a Universidade e como toda boa cidade histórica era um sobe e desce por ruas estreitas, com pedras polidas por tantos passos. De nossa janela avistávamos o rio Mondego e infelizmente a fumaça de tantas queimadas nos arredores de Coimbra e por todo o país. No encontro que tivemos com o Moovlab na livraria XM para falar de nosso processo de trabalho, enfrentamos uma chuva de cinzas que o vento teimava em trazer da mata ardendo. O bate papo teve temas bem diversificados, falamos sobre a dança no Brasil, sobre a dificuldade de manter a pesquisa de uma linguagem na cidade de São Paulo, sobre a violência e sobre o corpo contemporâneo. O primeiro livro que encontramos na prateleira da livraria XM foi do cineasta Kiarostami: Na arte, ao contrário do mundo dos negócios, o aperfeiçoamento só pode surgir da inadequação. Temos essa frase colada em uma de nossas paredes no estúdio, pois a via incerta tem nos dado maiores inspirações.</p>
<p>Voltamos reafirmando nossa teimosia em existir e levar nossa pesquisa adiante. Dançar na rua é uma das propostas que a Cia. desenvolve desde 1999 e depois da experiência em Portugal, já estamos preparando outro trabalho: Formas que o acaso e o vento dão às nuvens.</p>
<p>Agradecemos á todos de Coimbra a acolhida, a comida gostosa, o pessoal todo do Vó Arte, o fado que ecoava pelas ruas estreitas cantado pelos homens de capas pretas: Coimbra tem mais encantos na hora da despedida. E assim, cantando, fomos embora.</p>
<p>Em tempo: A Cia. Artesãos do Corpo realizou a viagem sem nenhuma espécie de apoio por parte do Brasil!</p>
<p><strong>Mirtes Calheiros</strong></p>
<p>Voltar</p>
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		<title>Por que na rua?</title>
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		<pubDate>Wed, 30 May 2007 22:32:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[cooperativapaulista]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Cooperativa Paulista de Teatro]]></category>
		<category><![CDATA[Dança]]></category>
		<category><![CDATA[Encontro sobre dança]]></category>
		<category><![CDATA[Visões Urbanas]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por que na rua?
Bate papo com os grupos que participaram do IIº Visões Urbanas, representantes do Movimento Teatro de Rua ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Por que na rua?<br />
Bate papo com os grupos que participaram do IIº Visões Urbanas, representantes do Movimento Teatro de Rua e da Cooperativa Paulista de Teatro.</p>
<p><em>Local Cooperativa Paulista de Teatro<br />
II º Visões Urbanas / 23 a 27 de maio de 2007.<br />
Festival Internacional de dança em paisagens urbanas<br />
Rede CQD</em></p>
<p>O II º Festival Internacional de dança em paisagens urbanas Visões Urbanas, contou entre outras iniciativas, com um bate papo entre os participantes do festival (Grupo Caixa de Imagens, Coletivo Solo, Urubus, Lu Bortoletto, Gil Grossi, Lara Pinheiro Dau) e convidados que possuem trabalhos artisticos e pesquisas desenvolvidas para os chamados “espaços não convencionais”. Foram eles: Eliana Cavalcante do Movimento Mobilização Dança e do núcleo Passo Livre; Carlos Biaggioli, representante da Cooperativa Paulista de Teatro;  Iracity Cardoso, Coordenadora de dança da Secretaria Municipal de Cultura representada por Alexandra Itacarambi;Cícero Almeida do Teatro Popular União e Olho Vivo e representante do Movimento de Teatro de Rua ; Mirtes Calheiros, diretora da Cia Artesãos do Corpo; Ederson Lopes, produtor da Cia Artesãos do Corpo; Tiel del Valle, assessor de imprensa.</p>
<p>O Festival Visões Urbanas é uma realização da Cia Artesãos do Corpo e faz parte da rede CQD – Rede Cidades que Dançam que conta com festivais em cidades  da Europa, América Latina e Central como Barcelona, Lisboa e Valparaíso.</p>
<p>Até então São Paulo não estava incluída nesse circuito e consideramos que uma cidade que possui tal produção em dança não poderia ficar fora de uma rede tão representativa. Falta agora que os possiveis apoiadores também se sensibilizem e possibilitem que o IIIº Visões Urbanas tenha um alcance maior e que possamos trazer grupos de outros paises para uma troca mais efetiva entre todos os participantes.</p>
<p>Para essa edição a Cia Artesãos do Corpo contou apenas com uma verba reduzidíssima advinda do Projeto “O Corpo e a Cidade” contemplado na primeira edição do Programa de Fomento à Dança para cidade de São Paulo.</p>
<p>Para o bate papo sugerimos alguns tópicos como:<br />
&#8211; a dança na paisagem paulistana;<br />
&#8211; como sensibilizar as instituições de segurança para receber a arte na rua;<br />
&#8211; o corpo na cidade.</p>
<p>A partir daí foram sendo traçadas as linhas básicas que norteiam os trabalhos desenvolvidos pelos grupos presentes ao encontro que apontavam várias intersecções e pontos em comum como :</p>
<p>&#8211; a arte inserida no cotidiano da cidade a fim de conectar os passantes ao tempo presente;<br />
&#8211; a proposta de velocidades mais reduzidas a fim de levar à contemplação, à opinião sobre o que está acontecendo e ao questionamento sobre para que serve a velocidade;<br />
&#8211; a platéia se configura como pessoas que podem escolher não aderir à intervenção, sendo comum aos grupos o fato de não haver um convite formal para as apresentações nas ruas;<br />
&#8211; colocar o corpo como questionador de um cotidiano estressante e sem graça e apontar pontos de resistência na cidade e no asfalto;<br />
&#8211; provocar um estranhamento através dos movimentos extra-cotidianos;<br />
&#8211; colocar o corpo como fator integrante do meio ambiente;<br />
&#8211; discutir o que é espaço público;<br />
&#8211; inverter o paradigma de que o fato social é apenas a violência;<br />
&#8211; lançar olhar para a poesia cotidiana.</p>
<p>O encontro revelou as motivações dos grupos para realizar trabalhos em espaços abertos e os aspectos que não contribuem para o desenvolvimento dessas intervenções.</p>
<p>Para começar, lembramos da importância do Movimento Mobilização Dança nas inúmeras conquistas que a dança contemporânea obteve, uma delas a Lei de Fomento à Dança apresentada pelo vereador José Américo e aprovada por unanimidade pela Camara dos Vereadores. Essas ações possibilitaram maior visiblidade e incentivo aos trabalhos que vinham sendo realizados anonimamente por grupos e companhias em toda cidade.</p>
<p>Ederson Lopes, produtor e intérprete da Cia Artesãos do Corpo ressaltou a importância de levar as propostas apresentadas para o Visões Urbanas a uma público que não tem acesso a dança e que não vai às salas de apresentações. Lembrou que os trabalhos que foram apresentados são diversos, tendo tanto os que vão circular pela cidade como os que dialogam com o teatro. Agradeceu a participação de todos na esperança que essa parceria entre artistas e programadores sobreviva por muito tempo e que possamos dar apoio aos grupos com a mesma qualidade das propostas apresentadas.</p>
<p>Lembrei que os Artesaõs do Corpo realizam trabalhos na rua desde 1999 e temos visto aumentar nossos problemas com relação a falta de preparo da polícia com relação as intervenções artisticas na rua. Imaginamos que esses problemas também tenham ocorrido em outros grupos e considerei um bom tema para conversarmos.</p>
<p>Ederson , propos aos presentes para que contassem o por que a rua para a expressão de sua arte. Por que não a proteção do palco? O que toca cada trabalho no sentido de serem levados para a rua?</p>
<p>Para Eliana Cavalcante a rua é uma escolha e trabalhar no bairro de Pinheiros foi um desafio, uma vez que o lugar, segundo ela, não é glamuroso e é pouco desejado. As pessoas passam correndo naquele Largo. Antes da performance realizamos um questionario para detectar os lugares em que as pessoas gostavam de ficar como se fosse um mapa turistico. Quanto ao Bairro de Pinheiros elas relatavam que ali não havia nada, desconsiderando o Instituto Tomie Ohtake, o SESC e outras espaços e lugares que ninguém quer ver.</p>
<p>“Você está transitando e do nada<br />
 recebe um presente, dentro dessa<br />
 cidade caótica.” Lara P. Dau</p>
<p>Para Lara Pinheiro Dau a rua significa “ampliar o universo da dança que considera muito fechado, além de colocar o intérprete fora do centro das atenções e para isso um intenso trabalho interno tem que ser realizado”. Suas experiências começaram em Amsterdam onde ela percebeu “ser mais uma pessoa em meio a tantos acontecimentos e isso a fez perceber o espaçao de maneira difente”. Lara também levantou um fato que pareceu ser comum a todos os grupos presentes:  não querer convidar formalmente as pessoas para as apresentações na rua, pois “a idéia de espetáculo não serve a essas apresentações e sim a idéia de intervenção”. Cabeça de Alface, apresentada por ela, proporciona até “dançar com os feirantes e causar estranhamento, levando uma linguagem do corpo a qual as pessoas não estão acostumadas, não é o corpo que  passa na Tv, nem o corpo cotidiano. O público que assiste a essas apresentações é muito diverso, tem criança, velho e as pessoas são pegas de surpresa. Você está transitando e do nada recebe um presente, dentro dessa cidade caótica.</p>
<p>Todos que realizam trabalhos na rua ouvem comentários, que podem sinalizar como anda o inconsciente das pessoas com relação à arte, uma vez que são pegas pelo inusitado, obrigando-as a reajustar o olhar muitas vezes viciado.</p>
<p>“as pessoas que presenciam uma intervenção na rua, têm possibilidades<br />
mais amplas para uma possivel troca com<br />
 o artista.” Rosana Judkowitch</p>
<p>Rosana Judkowitch, interprete da Cia Artesãos do Corpo, acrescenta que os trabalhos de rua pegam os passantes de surpresa e sem as “camadas protetoras” que um público convidado  a uma sala de teatro possui. Para ela “as pessoas que presenciam uma intervenção na rua, tem possibilidades mais amplas para uma possivel troca com o artista.<br />
Existe algo mais permeável e consequentemente uma particula de preciosidade que vai além do que seria para um públlico formal.”</p>
<p>“Pensamos em como poderíamos constrir<br />
 um espetáculo intimista sem ser individualista<br />
 num local que tem um pensamento tão duro,<br />
 rígido e aí nasceu o projeto:<br />
 Nós e aquela caixinha.”  Monica Simões</p>
<p>Para Monica Simões do Grupo Caixa de Imagens, “os trabalhos na rua começaram a uns 13, 14 anos a partir da observação de que as pessoas usam os espaços apenas como espaço de passagem sem prestar atenção, sem parar. Pensamos em como poderíamos constrir um espetáculo intimista sem ser individualista num local que tem um pensamento tão duro, rígido e aí nasceu o projeto: Nós e aquela caixinha. Nele trabalhamos muito com essa questão do parar, da lentidão e do pequeno detalhe, a qualidade estética. Nós temos tido experiências muito interessantes, pois tem sempre uma pessoa que tem pressa e as desculpas são sempre as mesmas: eu tenho que trabalhar, até mesmo aos domingos as pessoas dizem que tem que trabalhar. Eu tenho que ir para Brasilia, tenho horário no dentista. Quando a fila já está formada nós perguntamos às pessoas que estão no inicio da fila, se estas pessoas com pressa poderiam passar à frente e a fila deixa. Essas pessoas que furam a fila por pressa acabam ficando até o fim e ninguém acha ruim. Nunca aconteceu de alguém da fila dizer: Poxa! Mas vc não tava com pressa? Algumas pessoas que não conhecem o nosso trabalho dizem: Ahhhh! Mas pegar fila é uma coisa chata! Mas aquela fila é uma fila completamente diferente, pois ali se forma um grupo que está vivendo algo muito especial!!”</p>
<p>Para a Cia Atesãos do Corpo interferir na velocidade proposta pela rua tem sido um trabalho constante e quando nos perguntam se é dança, respondo : é dança sim e é um aspecto diretamente ligado ao corpo. Quando assisti ao trabalho da Caixa de Imagens percebi que só pode ser realizado com essa maestria se o corpo inteiro estiver participando na movimentação do boneco que aparentemente se dá apenas com as mãos.</p>
<p>Como então dialogar com os órgãos,<br />
as entidades para obtermos cada vez mais<br />
consistência para o movimento de dança<br />
voltada para paisagens urbanas? Ederson Lopes</p>
<p>Ederson lembrou o interesse das pessoas em dançar na rua. Na oficina “Paisagens do Corpo” realizada no Estúdio Artesãos do Corpo em fevereiro tivemos uma procura de mais de 60 pessoas e a maioria já trabalhavam com dança, com movimento. Existe uma demanda para esses trabalhos na rua e o Festival Visões Urbanas veio também com o objetivo de abrir mais um espaço de trabalho, criação e difusão. O movimento Teatro de Rua já tem uma história e criou demandas dentro da Secretaria de Cultura e em  outros espaços para difundir estas outras linguagens. Como então dialogar com os órgãos, as entidades para obtermos cada vez mais consistência para o movimento de dança voltada para paisagens urbanas?</p>
<p>Que natureza é essa? O que é vc olhar uma florzinha numa grade? Ou um vento que passa entre os corredores de uma galeria de São Paulo? Essas coisas começaram a virar questionamentos de como percebemos a natureza num ambiente urbano porque as pessoas geralmente não olham para isso, não escutam isso. Lu Bortoletto</p>
<p>Para Luciana Bortoletto os trabalhos na rua começaram unindo fotografia e dança e naturalmente surgiram oportunidades para apresentações em espaços alternativos. “Aí conheci o haicai, que é uma poesia japonesa, que fala basicamente da observação do ambiente. E quando nós lemos o haicai ele esta relacionado com a natureza pura, no sentido de não urbanizada, porque as referências que temos são essas. E aí como é isto na cidade? Que natureza é essa? O que é vc olhar uma florzinha numa grade? Ou um vento que passa entre os corredores de uma galeria de São Paulo? Essas coisas começaram a virar questionamentos de como percebemos a natureza num ambiente urbano porque as pessoas geralemente não olham para isso, não escutam isso. Quando um passarinho está cantando, você está no escritório sem prestar atençao nisso. Nós tivemos um encontro com o Jorge Peña, o sonoplasta, uma pessoa muito especial que trabalha basicamente com improvisação e com a criação das texturas dessas paisagens sonoras e às vezes aproveitando as interferências dos sons que vem da rua também. E aí começamos a desenvolver esta história da poesia haicai com a dança e a sonoplastia em ambientes alternativos, não necessariamente na rua. Acho que o que mais pega nesta proposta é fazer a pessoa parar por um instante que seja. Então nós realmente abordamos as pessoas e recebemos todo tipo de pergunta como: quanto tenho que pagar por um haicai? Então a pessoa sorteia uma poesia, lê e ai a gente dança.</p>
<p>Porque no caso desta dança na rua, ao mesmo tempo que não é um corpo cotidiano, também não é aquela dança que as pessoas acham que vão ver, com movimentos virtuosos, pois aqui a gente propõe que a dança seja um gesto. É uma dança de 20 seg no máximo. São coisas que não tem preço!! – Lu Bortoletto</p>
<p>É tudo personalizado, para cada pessoa uma sonoplastia diferente de acordo com o haicai. Nós utilizamos um guarda chuva que é quase uma caixa acústica, cheio de pinduricalhos. E aí a gente cria essa dança e recebemos como retorno uma coisa muito forte que é desde a pessoa chorar, porque de alguma maneira aquilo suscitou alguma coisa nela, que só ela sabe, que é segredo dela, até uma pessoa que começa rir, a outra que sai, vai embora, foge. Uma outra que pergunta: isso é dança? ou: ele é seu pai? Ou se é poesia japonesa porque você naõ está vestida como japonesa? E enquanto estamos em cena, conversamos com as pessoas, não é um trabalho que entra num lugar que apesar de estar com ela ali em cena, mantém um certo distanciamento. Lógico que não ficamos ali batendo papo, mas se necessário conversamos um pouquinho. Mas é sempre a sensação de algo novo, o friozinho na barriga: o que será hoje? A gente vai para o Pateo do Colégio? O que será que absorveremos deste lugar ou o que levaremos para este lugar e o que as pessoas deste lugar irão receber disto? Porque no caso desta dança na rua, ao mesmo tempo que não é um corpo cotidiano, também não é aquela dança que as pessoas acham que vão ver, com movimentos virtuosos, pois aqui a gente propõe que a dança seja um gesto. É uma dança de 20 seg no máximo. São coisas que não tem preço!!</p>
<p>“atualmente vivemos em contato com uma sociedade totalmento<br />
voltada para o consumo e o único local em que um pedreste<br />
 para é na frente de uma vitrine, caso contrário, está de passagem mesmo!<br />
É nossa responsabilidade transformar isso.” Carlos Biagiolli</p>
<p>Carlos Biagiolli parabenizou a iniciativa da Cia Artesãos do Corpo e agradeceu a escolha da sede da Cooperativa Paulista de Teatro para o encontro e lembrou que o portal para a dança está aberto à todos.</p>
<p>Depois falou sobre sua experiência em  teatro e  circo bem como sua atuação nos espaços abertos. Afirmou que “atualmente vivemos em contato com uma sociedade totalmento voltada para o consumo e o único ponto em que um pedreste para é na frente de uma vitrine, caso contrário,está de passagem mesmo! È nossa responsabilidade transformar isso.”<br />
Sua sugestão é “ trazer de forma envolvente este espectador que cai de para- quedas trasportando-o para um estado de vivência. È como se compartilhassemos com o transeunte a responsabilidade da construção da cena. É óbvio que  a gente não vai encenar sem nada debaixo da manga, pois infeliz daquele que acha que o bom ator está improvisando, afinal de contas é uma questão de repertório, de bagagem de vida. É isso, acredito, que caiba para todas linguagens como para a dança e o teatro de bonecos. Acredito que as surpresas vão acontecendo e você tem que estar com sua musculatura muito desenvolvida no sentido de estar atento à si mesmo, à sua própria vivência e bagagem para poder, como um alquimista, na hora que a coisa acontece, você ter instrumentos para puxar o coelho da cartola e salvar aquela situação. Estamos vivendo um momento em que dar uma boa cuspida no meio da rua, junta uma roda. Porque as coisas estão padronizadas, estão totalmente esquematizadas para o consumo.</p>
<p>“Então nós temos que competir com as vitrines, temos que competir com os homens sanduiches, temos que transforma-los em personagens das nossas intervenções, temos que transformar o espectador em participe. Se no seu espetáculo de rua ou intervenção não houver a participação do cachorro, da prostituta, do desempregado, do louco, do bêbado ou do guarda civil, então não atingiu o seu objetivo de estar levando a arte para a rua.” Carlos Biagiolli</p>
<p>Vejo que necessitamos quase que um terrorismo teatral para envolver estes espectadores paraquedistas. Estou vendo aqui uma foto no programa do Festival no Viaduto Santa Efigênia, que só pela foto já me trasformou! Eu já fui arrebatado, eu acho que é por aqui então o caminho. Nós temos que criar situações que fujam da palavra. Porque a rua não é um lugar da palavra, ou não é o lugar da palavra coloquial. E temos que criar situações de vivência. O Caixa de Imagens, por exemplo, quando me  deparei com o trabalho deles, me arrebatou e me transportou para um lugar que me tirou do cotidiano. Então nós temos que competir com as vitrines, temos que competir com os homens sanduíches, temos que transforma-los em personagens das nossas intervenções, temos que transformar o espectador em participe. Se no seu espetáculo de rua ou intervenção não houver a participação do cachorro, da prostituta, do desempregado, do louco, do bêbado ou do guarda civil, então não atingiu o seu objetivo de estar levando a arte para a rua.”</p>
<p>Ressaltei que a experiência nas ruas sempre teve antes de qualquer coisa um objetivo pedagógico na medida em que a sala de aula, com seu chão liso e confortável não oferece desafios e situações ricas como a rua. Além do fato da rua nos oferecer poesia, movimentos e personagens bastando para isso apurar o olhar. Uma balde de água que um lojista ou zelador de prédio joga no chão possibilita uma infinidade de cenas e movimentos criados ali mesmo na hora: pessoas pulando a água, levantando as calças para não molhar, desviando, pisando na água distraidamente, escorregando, um cachorro que mata a sede, uma senhora que reclama até as imagens vistas de forma invertida no chão.<br />
Queremos continuar criando para  rua e palco, pois são experiências indissociáveis.</p>
<p>Carol do Urubus desenvolveu dois trabalhos, sendo um em árvores e outro na rua. Para interagir com o espaço, realizam pinturas corporais a fim de levar a idéia de que “nosso corpo é sim um elemento natural e parte dessa natureza”. Já nas árvores, são trabalhos de longa duração: de 24h a 4 dias. O objetivo dessas intervenções são as mesmas já levantadas: levar arte para a rua, olhar de uma outra maneira a cidade. São Paulo possui poucos elementos naturais, diz Carol. A árvore é um deles. Significa um “momento de pausa estar na árvore olhando os pássaros ou simplesmente abraçá-la”.<br />
Carol relatou experiências intensas desde que iniciaram as intervenções nas árvores. Ela conta que já houve homem se masturbando enquanto elas estavam na árvore, teve morador de rua que participou do começo ao fim da intervenção, dormindo, auxiliando o pessoal de apoio e até meditando com o grupo. Ela diz que algo acontece e que certamente o que elas realializam não é um espetáculo e não tem sentido convidar pessoas para irem assitir e o fato de ir alguém só para assistir deixa o grupo frágil  Segundo ela “olhar para a vida, para o cotidiano é fazer alguma coisa”.</p>
<p>Lembrei que a Cia Artesãos do Corpo trabalha muito com a idéia de recuperar a capacidade de contemplar e há um comentário que sempre ouvimos ao realizar nossos trabalhos que é: vocês não tem mais nada o que fazer? Sempre que a situação permite vou atras do sujeito e explico didaticamente quanto de trabalho há envolvido e o quanto de estudo os intérpretes dedicam à sua performance.</p>
<p>O olhar que dedicamos ao cotidiano passa por um outro crivo que é o do olhar que seleciona o que vê e muitas vezes por uma questão de sobrevivência: Quem aguentaria olhar de verdade crianças que dormem na rua todos os dias? Precisaria tomar uma providência, não? Então é melhor não enxergar.<br />
Por isso contemplação e olhar de outra maneira são questões que trazemos em nossos trabalhos.</p>
<p>“&#8230;mas sim de unir os fazedores da arte com o intuito de mostrarmos à cidade<br />
de que ela necessita destes “jardineiros” que jogam essas sementes<br />
com a intenção de conscientização da população, direta ou indiretamente<br />
através do canal da arte para que assim possamos contribuir<br />
 para um meio ambiente melhor, uma sociedade mais integra<br />
e uma cultura mais desenvolvida.” Cícero Almeida</p>
<p>Cícero Almeida do Teatro Popular União e Olho Vivo realizou um histórico dos movimentos de teatro de rua:<br />
“os grupos de teatro de rua, no decorrer dos tempos, foram se unindo na tentativa de criar provocações de utilizações de espaços, não só no sentido de aplicar a arte no âmbito da cidadania, como responder o que é cidade. O que é o meio ambiente? Ás vezes as pessoas acham que a arte se reduz apenas ao ato da apresentaçõe e da existência da Companhia e nada mais. O artista que tem o espírito da rua, sabe que lá fora é uma outra visão, é uma imensidão e para o artista qualquer fato tem um significado, até mesmo um morador de rua tem uma outra visão que às vezes a nossa sociedade qualifica de uma outra forma, justamente por não conhecer essa realidade. Então a partir desse posicionamento alguns grupos se uniram e criaram o Projeto Se Essa Rua Fosse Minha: cada grupo através de sua linguagem, provocava sua interferência no cidadão, no cotidiano ou no transeunte que circulava pela ciade. Tudo isso regado a muitas discussões e reflexões entre os grupos participantes. Como consequência do amadurecimento das idéias que eram discutidas, surgiu então o Movimento do Teatro de Rua, para que pudéssemos criar mais força, no sentido de sairmos das garras dos programas de governo que por vezes nos impõe lugares específicos para apresentações, o que nos faz perceber que a cidade e o meio ambiente e suas localidades não são em verdade lugares públicos!<br />
Entaõ o Movimento de Teatro de Rua hoje não tem apenas como finalidade unir grupos, fazer mostras e suas apresentações, mas sim de unir os fazedores da arte com o intuito de mostrarmos à cidade de que ela necessita destes “jardineiros” que jogam essas sementes com a intenção de conscientização da população, direta ou indiretamente através do canal da arte para que assim possamos contribuir para um meio ambiente melhor, uma sociedade mais integra e uma cultura mais desenvolvida.</p>
<p>“Hoje vivemos uma inversão de valores, pois os profissionais dos órgãos<br />
 públicos olham os artistas com desdém e<br />
não percebem que se houvesse a extinção do universo<br />
das artes, estes órgãos públicos nem existiriam.” Cícero Almeida</p>
<p>E por falar em cultura mais desenvolvida, é importante salientar que nós do Movimento Teatro de Rua estamos com os olhos bem atentos em relação aos espaços culturais que vão se perdendo à cada gestão política: Vento Forte, Tendal da Lapa, etc.. Sendo assim, podemos dizer que o Movimento tem como preocupação primordial cuidar e preservar a politica cultural da cidade e não partidária. Hoje vivemos uma inversão de valores, pois os profissionais dos órgãos públicos olham os artistas com desdém e não percebem que se houvesse a extinção do universo das artes, estes órgãos públicos nem existiriam. E como consequência de todo esse processo nos tornamos reles produtos. Eu acho que quem é artista em sua essência não enxerga seu trabalho como produto. Não podemos perder essa bandeira!”</p>
<p>Sobre os espaços ditos públicos, relatei que nossas últimas apresentações foram muito tensas pois a polícia insiste em não querer entender a importância da arte nos espaçõs públicos tratando todos com truculência, como de resto, tratam assim tudo aquilo que não entendem. As intervenções no Viaduto Santa Efigênia quase terminam em tragédia, pois uma viatura do GOE (a mesma que simulou sequestro com balas de verdade em Pernanbuco), passou em alta velocidade em um local repleto de pessoas e bateu com o espelho retrovisor do carro no peito de um performer e avisou à outro que da próxima vez &#8211; passa por cima! Em outra intervenção em frente ao prédio dos correios, onde supostamente não pode passar carro, eles vinham com a viatura e um cachorro com a cabeça pra fora da janela, com a sirene ligada dispersando aqueles que nos assistiam e por duas vezes passaram muito perto de nossa movimentação, com o firme propósito de dispersar&#8230;.<br />
Em um dos relatórios que fizemos à Secretaria de Cultura, pontuamos a necessidade de conscientizar as ditas autoridades duras para que garantam condições de trabalho aos artistas.</p>
<p>“ Nós focamos muito na questão da formação de público e esquecemos que quem necessita dessa foramção são as instituições, a polícia, os profissionais que recebem os projetos para utilização desses espaços.” Ederson Lopes</p>
<p>Biagiolli disse que a rua é lugar de passagem! Não é lugar de encontro! Três pessoas juntas significa motim.</p>
<p>Diogo Soares, pesquisador musical da Cia Artesãos do Corpo lembrou que há outras formas de inibir os trabalhos na rua por falta de “educação” para a cultura. Em São José do Rio Preto, as apresentações ocorreram na rodiviária e as TVs permaneceram ligadas em volume máximo, pois a administração da rodoviária não queria retirar as propagandas e o SESC não cuidou para que isso não acontecesse.</p>
<p>Para Ederson  “ Nós focamos muito na questão da formação de público e esquecemos que quem necessita dessa foramção são as instituições, a polícia, os profissionais que recebem os projetos para utilização desses espaços.”</p>
<p>Carol também disse “ter passado por esse mesmo tipo de pressão nas apresentações no CEAGESP. Os mesmos policiais que haviam checado nossa autorização para performance naquele local, em um determinado momento nos arrastaram de lá em decorrência da reclamação de uma senhora.</p>
<p>“Manter-se artista nesta cidade é uma tarefa muito árdua.” Cícero Almeida</p>
<p>Segundo Cícero “A ditadura ainda está aí, só está mudada. Antigamente sabíamos quem eram explicitamente nossos inimigos. Hoje dá mais medo porque é tudo camuflado e você não sabe quem é quem. O artista que é visto por essas pessoas que receberam esta formação cultural lá de traz são vistos apenas como formadores de opinião: Ah! Ele é transformador, provocador, ele é comunista! Vagabundo! Então isso mostra o quanto ainda temos por caminhar. É uma vivência em vários sentidos! Manter-se artista nesta cidade é uma tarefa muito árdua.”</p>
<p>Encerramos o bate papo ressaltando a importãncia de percebermos que não estamos sozinhos e muitos temas podem ser discutidos como por exemplo a questão da mídia na rua que nas poucas vezes em que aparece estraga tudo ou o interesse que demonstra por eventos apenas. Será mesmo que precisamos de mídia?</p>
<p>Ederson solicita à Alexandra Itacarambi, representante da Sra Iracity Cardoso, que relatasse que o fomento à dança pode propiciar este tipo de diálogo, com essa qualidade de reflexões e que não só visamos um produto artístico. “Esse nosso encontro demonstra como nossa arte não tem preço. Torcemos para que esse diálogo entro os movimentos, os artistas e a secretaria de cultura continue. Precisamos caminhar bastante para que a politica cultural de dança possa avançar criando outros programas para circulação dos trabalhos. Agradecemos à todos.”</p>
<p>Assim inciamos nossas intervenções na esperança que tudo corra bem com os intérpretes.</p>
<p>E assim foi.<br />
O IIº Festival Visões Urbanas tomou conta de boa parte do centro da cidade. Me emocionou e tocou muitas pessoas.<br />
Que venha o IIIº Festival Visões Urbanas em 2008!</p>
<p>Muito obrigada,<br />
Mirtes Calheiros</p>
<p>Mirtes Calheiros &#8211; Socióloga, bailarina, Diretora da Cia Artesãos do Corpo dança-teatro e coordenadora artística do Festival Visões Urbanas.</p>
<p>Participaram do bate-papo Por que na rua?: Grupo Caixa de Imagens, Coletivo Solo, Urubus, Lu Bortoletto, Gil Grossi, Lara Pinheiro Dau, Eliana Cavalcante do Movimento Mobilização Dança e do núcleo Passo Livre; Carlos Biaggioli, representante da Cooperativa Paulista de Teatro;  Iracity Cardoso, Coordenadora de dança da Secretaria Municipal de Cultura representada por Alexandra Itacarambi;  Cícero Almeira do Teatro popular União e Olhe vivo e do Movimento de Teatro de Rua ; Mirtes Calheiros, diretora da Cia Artesãos do Corpo; Ederson Lopes, produtor da Cia Artesãos do Corpo; Tiel del Valle, assessor de imprensa.</p>
<p>Mirtes Calheiros</p>
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		<title>Onde se Dança a mais de 100 mil anos</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Aug 2005 22:28:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[cooperativapaulista]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[artigos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Serra da Capivara: Onde a arte e a ciência se unem como queria Laban</p>
<p>Carta enviada pela Cia. Artesãos do Corpo ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Serra da Capivara: Onde a arte e a ciência se unem como queria Laban</strong></p>
<p>Carta enviada pela Cia. Artesãos do Corpo ao término do INTERARTES.</p>
<p>Caríssimas.<br />
Em primeiro lugar gostaria de agradecer a oportunidade de participar do III INTERARTS e conhecer uma região tão maravilhosa como o complexo artístico cultural e arqueológico que é o Parque Nacional Serra da Capivara. Como já havia dito, há muito que nos interessamos pelo projeto, pela figura extraordinária de Dra. Niéde Guidon e seu exemplo de persistência e coragem.</p>
<p>As inscrições rupestres nos convidavam a olhá-las mais de perto já há algum tempo. Ao assistir um programa sobre o Parque ficamos intrigados ao ver tantas figuras que dançavam&#8230;Será mesmo?</p>
<p>Além de poder ter acesso a tudo isso, ainda tivemos a oportunidade de dançar em solo tão sagrado!</p>
<p>Os poucos dias que aí passamos foram muito intensos. Esquecemos o cansaço da viagem e mergulhamos nesse universo tão rico: as pessoas do local, o projeto que é impressionante (cursos, oficinas), o Festival, e as visitas ao Parque. Vocês: Cris e Elaine, que com tanta energia foram incansáveis, nos dando sempre muita atenção. Obrigada.</p>
<p>Ficamos emocionados ante as figuras que sorriam para nós ali nas pedras e tantas idéias passaram pela minha cabeça. Começamos ali mesmo a imitar os movimentos que esses seres realizavam&#8230;..Parecem que estão sempre comemorando a vida. A vontade que dava era ficarmos ali sentados em silêncio olhando longamente para tudo aquilo. Agora queremos ler o livro da Dra. Annne &#8211; Marie Pessis e quem sabe a tese da Cris (?) para podermos levantar algumas hipóteses sobre o corpo e o movimento desses nossos ancestrais. Não vamos esquecer a Gameleira: parece conosco &#8211; fura até pedra e encontra o ar, o sol e a água.</p>
<p>Nossa experiência, minha e do Ederson, com a oficina (tão rápida) que demos aos meninos e meninas do Pro &#8211; Arte FUMDHAM foi surpreendente. Nossa dúvida era como, em tão pouco tempo poderíamos sugerir a vivência de algumas práticas desenvolvidas pela companhia Artesãos do Corpo. Nossa surpresa foi: eles, em tão pouco tempo, trouxeram exercícios poéticos e demonstraram um esforço e uma vontade de nos ouvir que nos emocionou. Adoramos todos! Guardaremos por muito tempo cada movimento ali realizado. Espero que vocês tenham forças para continuar encorajando-os.</p>
<p>Sabem, por aqui, cansamos de vermos jovens que, em cada movimento realizado fazia-nos vislumbrar um futuro, se perderem em desesperança e desistirem, indo realizar tarefas mecânicas e repetitivas em nome de um salário mixo no final do mês. Mas quem somos nós pra dizer não façam isso? Não somos um exemplo de pessoas financeiramente bem sucedidas, não é?</p>
<p>É sempre bom saber que nossa linguagem é passível de ser praticada por qualquer pessoa disposta a fazê-la. Esse ano está sendo muito difícil para a Companhia em termos financeiros, mas muito rico nas questões artísticas.</p>
<p>Vida longa a todos os projetos desenvolvidos por vocês!</p>
<p>Esperamos nos ver em breve<br />
Abraços,</p>
<p><strong>Mirtes Calheiros</strong></p>
<p>Agosto 2005</p>
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